Maciel e MarottaAdvogados Associados
Serviços públicos essenciais

Falta de água no Buritis e na Região Oeste de BH: quais são os direitos do consumidor

Falta de água da Copasa no Buritis e na Região Oeste de Belo Horizonte: quando a interrupção é admitida em lei, o ressarcimento do caminhão-pipa, o abatimento da tarifa e o que separa o pedido do condomínio do de cada morador.

Falar com a advogada
Torneira gotejando com a região oeste de Belo Horizonte ao fundo

Nas últimas semanas, moradores do bairro Buritis e de outras localidades da Região Oeste de Belo Horizonte enfrentaram episódios de interrupção e instabilidade no fornecimento de água pela Copasa. O problema afetou residências e condomínios, especialmente em regiões mais altas, nas quais a baixa pressão da rede dificultou ou impediu que a água chegasse aos reservatórios.

Segundo informações divulgadas pela própria Copasa, as ocorrências estão relacionadas, entre outros fatores, a problemas envolvendo uma adutora de grande porte localizada na Rua Xapuri, no bairro Nova Granada. A Companhia realizou obras emergenciais para remanejamento da estrutura e recuperação da capacidade do sistema.

Diante de interrupções prolongadas ou recorrentes, surge uma dúvida recorrente: o consumidor que fica sem água pode exigir alguma providência da concessionária, ou até mesmo uma indenização?

1. Água é serviço essencial — e o que isso significa

O abastecimento de água não é um serviço comum. É serviço público essencial, diretamente relacionado à higiene, à saúde e às necessidades básicas da população. Três normas se somam nesse ponto:

Responsabilidade objetiva não equivale a responsabilidade automática. Ela dispensa a discussão sobre culpa, mas não dispensa a prova do dano.

2. Quando a interrupção é admitida pela lei

Nem toda falta de água é ilegal, e essa é a parte que costuma surpreender. O art. 40 da Lei 11.445/2007 — o marco legal do saneamento — enumera as hipóteses em que os serviços podem ser interrompidos, entre elas situações de emergência que atinjam a segurança de pessoas e bens e a necessidade de efetuar reparos, modificações ou melhorias nos sistemas. O rompimento ou o remanejamento de uma adutora se enquadra nessa segunda hipótese.

O mesmo artigo, porém, traz um dever que costuma passar despercebido: o § 2º determina que as interrupções programadas sejam previamente comunicadas ao regulador e aos usuários. Quando a obra é programada e o aviso não chega, ou chega depois, existe aí um descumprimento autônomo — independente da discussão sobre quanto tempo faltou água.

A análise jurídica considera, portanto, um conjunto: o motivo da interrupção, se ela era programada ou emergencial, se houve comunicação prévia, quanto tempo durou, com que frequência se repetiu, quais providências a concessionária adotou e quais prejuízos concretos resultaram.

E quando se prolonga por vários dias?

É aí que o quadro muda. Uma manutenção emergencial pontual pode justificar determinada interrupção; sucessivas interrupções, ou privação prolongada de um serviço essencial, deslocam a discussão para a falha na prestação. No episódio recente da Região Oeste, houve relatos de vários dias com abastecimento irregular, inclusive com condomínios recorrendo a caminhões-pipa para manter condições mínimas de funcionamento.

A existência de uma obra emergencial, nesse cenário, não afasta por si só a responsabilidade — ela entra na conta, junto com a duração e as providências tomadas.

3. Gastos com caminhão-pipa e abatimento da tarifa

Há dois pedidos de natureza material que costumam caminhar juntos, e vale distingui-los.

O primeiro é o ressarcimento do que se gastou por causa da falta. Um condomínio que precisa contratar caminhões-pipa para abastecer os reservatórios suporta uma despesa que só existiu porque o serviço contratado não foi prestado. Demonstrada essa ligação, discute-se a responsabilidade da concessionária pelo prejuízo.

O segundo é o abatimento proporcional da tarifa, previsto no art. 20, III, do CDC: pagar integralmente por um serviço que não foi integralmente prestado é o que o dispositivo permite corrigir. É um pedido menos lembrado e de prova mais simples, porque depende apenas das faturas e do período de interrupção.

Para qualquer dos dois, os documentos que sustentam o pedido são:

  • notas fiscais e recibos dos caminhões-pipa, com os comprovantes de pagamento;
  • protocolos de atendimento na Copasa e na ARSAE-MG, a agência que regula o saneamento em Minas Gerais;
  • comunicados enviados aos moradores e comunicados da concessionária;
  • registro das datas e horários em que houve falta de água ou pressão insuficiente;
  • faturas do período, para o cálculo do abatimento;
  • fotografias, vídeos e demais registros da situação.

4. A questão do dano moral está em julgamento no TJMG

Esta é a dúvida mais frequente, e a resposta honesta hoje é: depende, e a própria questão está sendo uniformizada.

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais afetou ao Tema 101 de IRDR — Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas, processo nº 1.0000.23.138516-2/001 — justamente a controvérsia sobre a necessidade de prova do dano moral decorrente de falha no fornecimento de água. Enquanto o incidente tramita, os processos que discutem o tema podem ficar suspensos, e a tese que vier a ser fixada valerá para todos eles.

Independentemente do desfecho, os fatores que os tribunais examinam são conhecidos: a duração da interrupção, as condições em que ocorreu, a gravidade dos transtornos, a existência de pessoas em situação de maior vulnerabilidade no imóvel — idosos, crianças pequenas, pessoas doentes — e as consequências efetivamente sofridas. Quanto mais prolongada e reiterada a privação, e quanto mais documentadas as suas consequências, mais consistente fica a discussão.

5. Quem pede o quê: o condomínio e cada morador

Esta distinção decide a sorte de muitos pedidos, e costuma ser percebida tarde demais.

O CONDOMÍNIO PODE PEDIRNotas do caminhão-pipaAbatimento da tarifaDano moralCADA MORADOR PODE PEDIRDano moral, conforme o casoGastos próprios comprovadosO condomínio é um ente despersonalizado: tem patrimônio a defender, não honraobjetiva. Por isso o dano moral, quando cabível, é pedido por cada morador.
O prejuízo material do prédio e o abalo pessoal de quem mora nele são pedidos por partes diferentes — confundir os dois custa a legitimidade do pedido.

O condomínio edilício é um ente despersonalizado: tem patrimônio próprio a defender, mas não tem honra objetiva. Por isso é parte legítima para pedir o ressarcimento das despesas do prédio — as notas do caminhão-pipa, o abatimento da tarifa — e não para pedir dano moral em nome dos moradores. O dano moral, quando cabível, é pedido por cada condômino, em nome próprio, porque quem passou pela privação foi a pessoa, não o edifício.

Na prática, isso significa dois caminhos paralelos: uma providência do condomínio, conduzida pelo síndico com autorização da assembleia, para o prejuízo material coletivo; e, se for o caso, providências individuais dos moradores quanto ao que cada um sofreu.

6. O que reunir enquanto o problema acontece

A documentação feita durante o episódio vale muito mais do que a reconstituição posterior. Em ordem de importância:

  1. Registre formalmente cada ocorrência na Copasa e guarde os protocolos. Sem protocolo, a discussão sobre quando começou e quanto durou fica no depoimento pessoal.
  2. Anote datas e horários de início e retorno do abastecimento, e os períodos de pressão insuficiente.
  3. Guarde todo comprovante de despesa decorrente da falta — pipa, compra de água, custos extraordinários.
  4. Reclame também na ARSAE-MG. Além de ser o caminho administrativo próprio, o registro na agência reguladora é documento independente da versão da concessionária.
  5. Preserve os comunicados da Copasa e do condomínio, e o material de imprensa local sobre o episódio.

Para o síndico, vale acrescentar a ata de assembleia que autorizou a contratação emergencial e os documentos de representação — são eles que demonstram a regularidade da despesa.

7. Prazo para reclamar

A pretensão de reparação pelos danos decorrentes de fato do serviço prescreve em cinco anos, contados do conhecimento do dano e de sua autoria (CDC, art. 27). É prazo confortável, mas ele não protege a prova: protocolo não registrado e nota fiscal extraviada não se recuperam depois.

Fui avisado da obra com antecedência. Isso muda alguma coisa?

Muda. A comunicação prévia é exigência do § 2º do art. 40 da Lei 11.445/2007 para interrupções programadas, e o seu cumprimento pesa a favor da concessionária. Ainda assim, aviso prévio não autoriza interrupção por prazo indeterminado: a comunicação legitima a interrupção anunciada, não qualquer duração.

A Copasa alegou rompimento de adutora. Isso é caso fortuito?

É a defesa usual, e ela não se resolve pelo rótulo. Discute-se se o evento era mesmo imprevisível e inevitável ou se decorre do próprio risco da atividade — hipótese em que não afasta a responsabilidade objetiva. O tempo de resposta da concessionária depois do rompimento também entra nessa avaliação.

Meu prédio tem cisterna. A Copasa pode dizer que a culpa é da reservação interna?

Costuma alegar. O argumento depende de demonstrar qual norma impunha àquele imóvel determinada capacidade de reservação, e essa demonstração nem sempre é feita. É ponto a examinar com o projeto e o histórico do prédio em mãos.

Todo mundo do bairro tem direito à mesma coisa?

Não. O fato de uma região ter enfrentado problemas no abastecimento não gera direito uniforme. É preciso verificar quanto tempo cada imóvel ficou efetivamente sem água, quais protocolos foram feitos, que prejuízos ocorreram e que prova existe. Situações vizinhas podem ter desfechos diferentes.

Aviso. Este texto tem finalidade exclusivamente informativa e não constitui consulta jurídica nem promessa de resultado. Cada caso depende da análise dos documentos e das circunstâncias concretas.

Ana Julia Marotta

Advogada inscrita na OAB/MG 232.785, de Maciel e Marotta Advogados Associados. Atendimento em todo o Brasil. Escreve neste site com finalidade informativa.

Dúvida sobre um caso concreto? Falar com uma advogada